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Uma vida bem difícil.



Lamentáveis as recentes notícias veiculadas, envolvendo alguns diretores de escola em supostas práticas de irregularidades na aquisição de merenda escolar. Mais que lamentável. Triste mesmo. Inevitável sermos assolados por sentimentos e reações as mais diversas.

Mais triste ainda, é vermos a imagem de toda uma categoria ser maculada de forma tão infame.

Não que inexistam diretores que possam estar envolvidos em atos ilícitos. Assim como há políticos, juízes, policiais, religiosos, governadores, ministros e uma infinidade de agentes públicos e privados maus, também pode haver maus diretores.

Na verdade, não há maus políticos, maus juízes, maus policiais, maus religiosos, maus governadores, maus ministros ou maus diretores. Há pessoas más. O caráter de alguém não se define pela profissão, mas sim pela formação moral de cada ser humano.

O que é de se lamentar profundamente, é que nesses casos de enorme viés midiático, de prejulgamentos apressados e de desnecessária exposição da imagem, não se separe o joio do trigo, e se lance toda uma categoria à fogueira cruel da execração pública.

Baseado em uma pretensa pratica de irregularidades, permeada por uma espalhafatosa exploração midiática com alguns objetivos pouco louváveis, a Sociedade em geral, mais influenciada pelo que vê e pelo que ouve, do que pelo que analisa e reflete, parece esquecer que os diretores de escola, como a grande maioria dos agentes públicos que atuam na área social, trabalham em jornadas aviltantes, lidam cotidianamente com professores desmotivados e revoltados com as condições que lhes são impostas, com alunos repletos dos mais variados problemas sociais, com uma burocracia que lhes asfixia e retira-lhes o sono e a saúde.

O cotidiano de um Diretor de Escola pública é profundamente extenuante e sacrificado. Responsável pela condução de um órgão público repleto de problemas e vítima de descasos históricos, que em alguns casos, beira o abandono, o Diretor, quase que rotineiramente, sacrifica sua saúde, sua família, seu descanso, e até seus sonhos e sua esperança, em troca de uma remuneração menor do que dez por cento do subsidio de um Deputado Estadual ou de um Magistrado.

Não que as condições acima descritas, justifiquem a prática de irregularidades ou o descaso com o erário público. Jamais. Não há justificativa para a Improbidade e para o mau caráter.

No entanto, não se justifica também, que por conta de supostas práticas espúrias por parte de alguns, todos se vejam expostos à desconfiança geral e à crítica e à condenação precipitada e inconsequente.

Os prejuízos futuros ao trabalho e à imagem da categoria já podem ser percebidos neste momento, quando um profundo abatimento moral recai sobre todos nós.

Afastamentos médicos e pedidos de dispensa, antes sobrestados devido ao imenso comprometimento dos diretores com suas comunidades, não serão mais adiados. A categoria está doente. Está cansada. Cansada do trabalho, cansada da exploração, cansada do não reconhecimento, cansada da falta de apoio.

Neste triste momento que passamos, devido a pandemia, são os diretores que estão na Escola, em prejuízo de sua própria segurança e da incolumidade de sua família, distribuindo Kits de alimentação aos alunos carentes, Kits que só são não melhores e mais dignos, porque os recursos repassados às escolas não são suficientes sequer para a composição de cestas básicas, já que os valores per capta repassados são tão irrisórios, que nos envergonha divulgar o seu valor.

Neste momento, são os diretores que estão supervisionando incessantemente, o acesso de alunos e professores às plataformas de ensino à distância, contornando as dificuldades de acesso por parte da maioria dos alunos, as reclamações e as dificuldades enfrentadas pelos professores e às pressões da Regionais para apresentarem resultados minimamente aceitáveis.

São os diretores que estão preenchendo diariamente dezenas de planilhas e drivers redundantes, quase que desnecessários, participando de reuniões virtuais desgastantes e intermináveis, lidando com gerentes de bancos que lhes cobram documentos que não podem ser confeccionados devido ao isolamento social, recebendo livros que continuam a ser entregues, respondendo mensagens agressivas de pais, alunos e professores, que lhes culpam por falhas das quais não são eles os responsáveis.

Enfim. Uma vida bem difícil.

Mas esta face cruel do cotidiano de um Diretor, não produz manchetes nem reportagens. Ressoam apenas entre eles mesmos, e entre eles e seus familiares, vítimas de sua ausência e do inevitável cansaço de que padecem cronicamente.

Fez falta uma defesa ferrenha da categoria por parte do órgão central. Parece que repentinamente, os diretores tornaram-se alienígenas perante a Secretaria de Estado a qual fazem parte, e tornaram-se apenas, elementos escolhidos por suas respectivas comunidades e apenas delas integrantes, olvidando-se e omitindo-se a responsabilidade maior que lhe compete como entidade fiscalizadora e participe direta de tudo que ocorre em suas unidades.

Fez falta um noticiário responsável, ciente da importância e da necessidade de se preservar a imagem desta importante categoria para a eficácia e eficiência da mais importante política pública, a Educação. Um noticiário que deixasse claro a especificidade e a individualidade da notícia, e que não fomentasse a generalização e a condenação precipitada, e que garantisse, ao menos coletivamente, o direito de resposta.

Todos sabemos como é fácil a condenação de inocentes à "fogueira da Inquisição", já que depois da avalanche de acusações midiáticas que influenciam a opinião pública, estes acusados, mesmo que posteriormente absolvidos judicialmente, nunca recuperarão a dignidade plena e enfrentarão grandes dificuldades para retomarem suas vidas, libertos dessa mácula perpetua.

Se faz necessária uma revisão profunda na forma pela qual as escolas realizam a gestão financeira. O Diretor não pode continuar sendo exclusivamente responsabilizado por atos, contratos, recebimentos, distribuição e fiscalização dos bens e serviços necessários ao funcionamento das Escolas. Não se propõe mais e mais burocracias, atestes, conselhos, cotações, carimbos, formulários, ou exigências formais estapafúrdias. Estas já existem em demasia. Torna-se necessário um protocolo ágil, simples e moderno que preserve a autonomia da gestão financeira descentralizada, mas que institua um sistema real e eficaz, de corresponsabilização, e que não relegue o Diretor a condição de condutor solitário e exclusivo de procedimentos complexos, para os quais, muitas vezes, lhes falta o apoio necessário.

O apego exagerado do sistema de controle brasileiro ao formalismo burocrático que impressiona apenas a visão superficial, conferindo-lhe uma aparência de seriedade, dado seu volume, mas que , na verdade, entrava e engessa a gestão pública, mais que inibir desvios e desmandos, na verdade, acaba por estimulá-los.

Desperta também, de todo esse triste episódio, a percepção de um enorme paradoxo comportamental de nossa sociedade.

Em um Pais e em um Estado membro nos quais falta espaço nos jornais para noticiar os descalabros e desmandos perpetrados em todos os escalões da publica administração, e em uma sociedade na qual, com exceções raras, sequer são cumpridas as regras básicas de transito, ou de postura pública ou até as normas convivênciais mais elementares, algumas pessoas ainda se sintam a vontade para criticar e condenar a priori, toda uma categoria, pela possível pratica de atos irregularidades por parcela ínfima de seus membros.

Lembrei-me agora, a contrario senso, da Perícopa da Adúltera. Como é fácil atirar a primeira pedra...

Seria bom também que aqueles que açodadamente prejulgam seus pares, que “o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir “.


Almir Morgado. Presidente Emerito da ADERJ.

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